Dom Salvador, de Rio Claro a Nova York: memória viva e futuramente em livro

O pianista, na altura dos seus 86 anos de idade, é um dos mais aclamados pianistas da atualidade e radicado nos Estados Unidos, onde é residente de um dos principais bares de jazz de Nova York, o tradicional The River CaféO pianista, na altura dos seus 86 anos de idade, é um dos mais aclamados pianistas da atualidade e radicado nos Estados Unidos, onde é residente de um dos principais bares de jazz de Nova York, o tradicional The River Café

O pianista, na altura dos seus 86 anos de idade, é um dos mais aclamados pianistas da atualidade e radicado nos Estados Unidos, onde é residente de um dos principais bares de jazz de Nova York, o tradicional The River Café

Rio-clarense radicado há décadas nos Estados Unidos, aclamado como um dos maiores pianistas da atualidade, terá sua história de vida contada em biografia

Há quase meio século que o rio-clarense Salvador da Silva Filho deixou a Cidade Azul em busca da “cidade que nunca dorme”. O pianista, na altura dos seus 86 anos de idade, é um dos mais aclamados pianistas da atualidade e radicado nos Estados Unidos, onde é residente de um dos principais bares de jazz de Nova York, o tradicional The River Café – que também leva o nome de “rio”, uma feliz coincidência que certamente faz Dom relembrar das suas origens em Rio Claro.

Talvez o nome não possa soar familiar para você, leitor. Mas saiba que está diante de uma das figuras mais emblemáticas da cultura brasileira, responsável e apontado como o criador do “samba soul” ou o “samba funk” ao lado de outros famosos cantores e músicos brasileiros – uma delas, Elis Regina. Trata-se de Dom Salvador, o pianista rio-clarense que iniciou a carreira ainda na década de 1950, tocando em bailes no município, como no Club Cidade Nova.

Em pouco tempo já estava em São Paulo na lendária Lancaster – uma boate para os amantes do jazz. Ao mesmo tempo em que a bossa nova começava a surgir, Dom Salvador chegava ao Rio de Janeiro nos anos 60 – em meio à repressão da Ditadura Militar. Por lá formou o Copa Trio, tocava no chamado Beco das Garrafas e acompanhava a Pimentinha em seus shows. Em seguida veio o Rio-65 e uma turnê pela Europa, onde gravou um álbum na Alemanha. Nos Estados Unidos, Elza Soares foi a parceira de shows.

Ao voltar dessa viagem para o Brasil, surgiu o Abolição – um grupo formado exclusivamente por músicos negros, um marco na época que lançou o movimento musical “Black Rio” onde o nome de Dom Salvador e talento alcançaram ainda mais sucesso. Depois, o novo Salvador Trio ajudou também a celebrar o “samba soul”, misturando funk e soul americanos ao samba genuinamente brasileiro. No início da década de 1970, o músico mudou-se para Nova York, onde vive até hoje e toca seis vezes por semana no The River Cafe, numa energia impressionante.

O jornal The New York Times, principal publicação jornalística de todo o mundo, aponta que o rio-clarense tem a residência musical mais longa da história de Nova York. Em entrevista anterior ao Grupo JC de Comunicação, Dom falou da aceitação da sua música pelos americanos. “Melhor impossível. Samba, jazz e batida ritmada enlouquecem os americanos de bom gosto e formam o autêntico groove brasileiro, a receita ideal a qualquer fã de música boa”, orgulha-se.

Este é só um pedaço da história de Dom Salvador que, em breve, terá a biografia completa retratada em um livro. O autor é Carlos Calado, um dos maiores especialistas e críticos musicais do Brasil. A reportagem do JC conversou com o escritor e amigo do músico rio-clarense sobre o projeto, que tem previsão de lançamento para 2026 e já está sendo produzido.

– Qual a sua relação com o músico Dom Salvador? Como se conheceram? 
CC
– Eu ainda era adolescente quando descobri a música de Dom Salvador, no início dos anos 1970. Pessoalmente, nos conhecemos em 2003, quando ele veio a São Paulo, para se apresentar no festival Chivas Jazz, em São Paulo. Como eu já o tinha entrevistado alguns dias antes para a reportagem publicada na “Folha de S. Paulo”, ele me convidou para tomar um café da manhã, na casa de uma sobrinha. Nossa amizade começou naquele dia.

– Como surgiu a ideia de escrever a biografia do músico Dom Salvador?
CC –
Não me lembro exatamente quando brinquei com o Salvador, dizendo que depois de entrevistá-lo várias vezes, eu acabaria escrevendo a biografia dele. Já durante a pandemia da Covid, em 2020, sugeri a ele que aproveitássemos o tempo disponível, para reunir material para esse livro. Gravei algumas dezenas de horas de conversa com ele, usando o Skype, mas como não consegui um patrocínio para o custear o período de pesquisa e escrita do livro, o projeto ficou na gaveta.

– O que o senhor atrela ao sucesso de Dom Salvador em Nova York ao longo de tantas décadas?
CC
– Nova York é uma das cidades mais musicais do mundo. Nenhum músico consegue se estabelecer ali, se não for resiliente e não tiver algo de muito original para oferecer ao público. A competição é muito grande, nessa metrópole, especialmente na área do jazz. Quem já assistiu ao documentário “Dom Salvador & Abolição” [de Artur Ratton e Lilka Hara, lançado em 2020], vai se lembrar que as imagens de Dom Salvador, àquela altura já por volta de seus 80 anos, andando pelos corredores do metrô nova-iorquino, são bastante reveladoras de sua perseverança.

– Como crítico musical, qual a sua avaliação dos trabalhos do músico e qual a importância do seu estrelado para a música?   
CC –
Não bastasse ter seu nome inscrito, nos anos 1960, entre os maiores criadores e intérpretes do samba-jazz, ainda no final daquela década ele se tornou um dos expoentes da “black music” com sotaque brasileiro, com seus inovadores álbuns “Dom Salvador” (de 1969) e “Dom Salvador & Abolição” (de 1971). Nesses discos, ele misturou a tradição do samba com a modernidade da soul music e do funk, antecipando assim novos estilos musicais, como o samba-soul e o samba-funk. 

– Sendo o senhor conhecedor da crítica também internacional, como os Estados Unidos veem Dom Salvador e o trabalho do músico?
CC –
Nos últimosanos, a obra musical de Dom Salvador tem sido mais e mais elogiada e reverenciada, tanto nos Estados Unidos, como na cena internacional do jazz. Talvez o melhor exemplo desse crescente reconhecimento seja sua recente nomeação para o Jazz Legacies Fellowship – uma espécie de prêmio especial concedido pela Fundação Mellon aos legados de músicos de jazz com mais de 62 anos. Dom Salvador foi o único latino-americano contemplado, numa lista de 20 importantes jazzistas norte-americanos, como Amina Claudine Myers, Billy Hart, Carmen Lundy, George Coleman, Roscoe Mitchell, Shannon Powell e Tom Harrell.     

– Dom Salvador, apesar de também conhecido no Brasil, tem essa carreira internacionalmente consolidada. Como vê a pouca repercussão do seu trabalho no Brasil e por que é importante trazer essa carreira num livro de biografia?
CC –
Sinceramente, acho que ele seria bem mais conhecido no Brasil se vivesse aqui. Mesmo assim, é inegável que ele desfruta de um grande prestígio entre apreciadores do jazz, da música instrumental e da música negra, em nosso país. Sua história pessoal e musical, tanto as conquistas como as dificuldades que já enfrentou, merecem ser narradas em um livro, para serem transmitidas às próximas gerações. 

– Hoje em qual estado está o projeto (entrevista, produção, etc.) e qual a previsão do lançamento?  
CC – O livro será produzido e distribuído pela conceituada Editora 34, que tem uma coleção especializada em música, pela qual já lançou meus livros “Tropicália – a História de Uma Revolução Musical” e “A Divina Comédia dos Mutantes”. Um financiamento coletivo organizado por amigos de Salvador está colhendo fundos para custear a pesquisa, a escrita do livro e a futura tradução para o inglês. Tanto a edição brasileira como a americana estão previstas para 2026.

Lucas Calore: